Carlos Dário, gestor do Parque Estadual do Desengano. Foto: Arquivo pessoal

Carlos Dário, gestor do Parque Estadual do Desengano. Foto: Arquivo pessoal

Primeiro parque estadual do Rio de Janeiro, criado em 1970, o Parque Estadual do Desengano (PED) ainda é um tesouro pouco explorado. Localizado no norte fluminense, entre os municípios de Santa Maria Madalena, São Fidélis e Campos dos Goytacazes, o Parque é a última área remanescente contínua expressiva da Mata Atlântica. Entre seus atrativos, além de numerosas cachoeiras e trilhas, está a Pedra do Desengano, um pico de  1.761 metros de altitude que empresta seu nome à unidade.

Por trás da gestão dos 22.400 hectares desta área protegida está Carlos Dário, geógrafo carioca formado pela UFRJ. Há exatamente 01 ano no comando do PED, Carlos foi também o primeiro Chefe do Parque Estadual do Mendanha, na Baixada Fluminense. “Saí do parque mais novo para o mais antigo do Rio de Janeiro”, diz. O geógrafo percebe um aumento cada vez maior no número de visitantes nos parques brasileiros e celebra a iniciativa do INEA que, no começo de junho deste ano, regulamentou o programa de voluntariado nas UCs estaduais. Segundo ele, as expectativas são de que o trabalho voluntário comece ainda no segundo semestre de 2016, uma solução para o déficit de funcionários do parque.

Confira abaixo entrevista que o WikiParques fez com Carlos Dário:

WikiParques: Como é feita a divulgação do Parque Estadual do Desengano para o público?

Carlos Dário: A divulgação do parque acontece por meio de matérias publicadas em portais da internet, como O Globo (G1) e o próprio WikiParques, além de postagens constantes na página oficial do parque no Facebook, que hoje conta com cerca de 5 mil seguidores. Também estamos elaborando um folder sobre birdwatching (observação de pássaros), específico para o PED, para divulgar esta que é uma de nossas principais atividades. Para dar um exemplo desse potencial: encontramos aqui cerca de 25% das espécies observadas em todo o Brasil.

Cachoeirado Maracanã. Foto: João Rafael Marins

Cachoeirado Maracanã. Foto: João Rafael Marins

E o fluxo de visitantes? Como é feito o controle?

Em relação ao número de visitantes anuais, a última estimativa oficial é de 2013, ocasião em que cerca de 10 mil visitantes estiveram no Parque. A maioria dos visitantes vem em busca de contato com a natureza e tranquilidade, e também das atividades realizadas como caminhadas em trilhas, visita ao centro de visitantes, banho de cachoeira e a prática de esportes. Recebemos um público eclético em nossa sede, que vai desde escolas do entorno até pesquisadores, visitantes de universidades e centros de pesquisas.

Parte do fluxo de visitantes é monitorada por eco-contadores, utilizados de forma pioneira nas unidades de conservação (UCs) do estado do Rio de Janeiro. Este equipamento de alta tecnologia é capaz de registrar a quantidade de visitantes no local onde foi instalado, além de informar o horário em que cada visitante passou pelo local. Nos grandes feriados são montadas operações de monitoramento e fiscalização nos principais atrativos do parque, onde é realizada a contagem in loco do número de visitantes. E a contagem de visitantes na sede do parque, o centro de visitantes, é realizada diariamente.

Existe algum trabalho voluntário no Parque? Ou alguma iniciativa prevista?

O Instituto Estadual do Ambiente (INEA) – órgão responsável pela gestão das UCs estaduais do Estado do Rio de Janeiro – regulamentou recentemente o programa de voluntariado, portanto, existe a expectativa de que ainda no segundo semestre de 2016 o Parque do Desengano comece a receber voluntários para a realização de diversas atividades.

Muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides). Foto: João Rafael Marins

Muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides). Foto: João Rafael Marins

O voluntariado representa uma trilha de mão dupla, onde tanto a unidade quanto o próprio voluntário saem beneficiados. A UC passa a contar, mesmo que temporariamente, com mais um membro na equipe para desempenhar determinadas atividades, o que se torna ainda mais interessante considerando o cenário atual de déficit de pessoal. Contribuímos ainda para formação de um possível profissional para nossas áreas preservadas, exercendo com isso, uma das atribuições do poder público. Queremos implementar um programa de voluntariado e aos poucos adotar estratégias que o fortaleçam o programa, para que seja mais um instrumento de gestão.

Qual o caminho para potencializar de forma consciente o uso público dos parques?

Ano a ano, o número de visitantes em Unidades de Conservação federais vem crescendo de forma expressiva – é o que apontam os dados oficiais do ICMBio (órgão responsável pela gestão das UCs federais em todo o país). Na esfera estadual, ainda existe uma certa carência de dados oficiais e sistematizados, contudo, de maneira empírica, sabe-se que, embora de forma mais tímida que nas UCs federais, a visitação nas UCs estaduais também apresentou crescimento, principalmente na última década. Atualmente, buscar estratégias para aumentar o número de pessoas que visitam os parques, sejam federais ou estaduais, não é mais prioridade absoluta. Os foco agora deve ser orientar e qualificar esse público.

Neste sentido, as ações desenvolvidas devem ser de abrangência local, voltadas para a realidade de cada parque e, sobretudo, envolver as comunidades no entorno dessas áreas protegidas. A ideia é que se tornem verdadeiros parceiros no processo de gestão do parque, em especial em relação à visitação, oferecendo serviços de apoio ao visitante (isso inclui alimentação, hospedagem, traslados, condução em trilhas).

Para que isto se torne uma realidade é necessário o estabelecimento de políticas públicas que fortaleçam o uso público nas Unidades de Conservação, sendo imprescindível o envolvimento dos setores, governamentais e privados. Outro grande desafio é criar o sentimento de pertencimento das unidades para a população do entorno imediato. Repetindo o nunca superado clichê ambiental: somente preservamos aquilo que conhecemos. Para preservar é necessário conhecer e se apoderar daquele território.

Pedra do Desengano e Pedra Verde. Foto: João Rafael Marins

Pedra do Desengano e Pedra Verde. Foto: João Rafael Marins

Quais os grandes desafios na gestão de parques e áreas protegidas no Brasil? E, mais especificamente, do Parque Estadual do Desengano?

Um dos principais gargalos na gestão de parques e outras áreas protegidas refere-se à regularização fundiária, considerando os enormes custos para as desapropriações e o arraigado poder que possuir terras ainda tem no Brasil, desde os tempos coloniais, o que gera conflito com moradores, dificuldades para os atos de fiscalização, entre outros problemas.

A ocorrência de incêndios florestais também é  um problema crônico de boa parte das áreas protegidas brasileiras e, por isso, um desafio constantes na gestão dessas áreas. Nas unidades próximas agrandes centros urbanos, os incêndios são quase sempre provocados por balões, que são verdadeiras bombas lançadas em nossos parques. Já nas unidades próximas de zonas rurais, são as queimadas as grandes responsáveis pelos focos de incêndios. O proprietário rural ainda acredita que o fogo é o método mais rápido e barato de limpar seu pasto, entretanto, iniciada a faísca da primeira chama, o fogo não respeita fronteiras e dizima florestas.

A prática da caça é outro problema: uma tradição que persiste mesmo sem necessidade da proteína animal ou fins de alimentação, que acontece pelo simples prazer da caça, do cruel e covarde abate de qualquer animal, independente do porte.

Outro aspecto relevante é o espaço que o Ministério do Meio Ambiente ocupa na agenda política do momento, figurando entre os ministérios com menor repasse de recursos dentre os mais de 20 ministérios existentes. Em consequência da verba reduzida, as Unidades de Conservação contam com um número extremamente reduzido de funcionários, frente a um território gigantesco a ser protegido. O Brasil tem uma relação funcionário x hectare protegido muito inferior à países como EUA, Nova Zelândia e até mesmo alguns países do continente africano. O número de funcionários  passa a ser mais um desafios na gestão das UCs passa.

Poço da Mericiana. Foto: João Rafel Marins

Poço da Mericiana. Foto: João Rafel Marins

Por fim, muitas Unidades de Conservação no Brasil não possuem Plano de Manejo, um documento básico para nortear a gestão destas áreas. O PED, no entanto, possui o seu, que foi aprovado em 2005. O parque corresponde a uma área de 22.400 hectares e mais outros 22.000 hectares de zona de amortecimento, devido a esta grande extensão territorial. Aqui enfrentamos muitos dos problemas acima e, nisto, contamos com uma UPAm-Unidade de Polícia Ambiental. A UPAM é uma tropa especializada na área ambiental para atuar no combate aos crimes ambientais dentro da nossa unidade: não apenas a caça, mas também o corte irregular de madeira, a ocupação irregular do solo, a extração de recursos minerais e qualquer outro delito que afeta o bioma. Apenas como número ilustrativo dessas ações numa única área, a UPAm-Desengano, até o início do mês de Julho deste ano, havia apreendido 850 aves, cuja grande maioria já foi devolvida à natureza.

Obrigado, Carlos! Obrigado pela entrevista e pelo olhar dentro das unidades cariocas. E você, Leitor, continue atento ao blog e ao Facebook do WikiParques para novidades e futuras entrevistas com os gestores das nossas áreas protegidas.

 

 

 

 

 

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