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Paulo Santi, o gestor do Parque Nacional de São Joaquim, um dos poucos parques no Brasil onde neva. Foto: Arquivo Pessoal


O Parque Nacional de São Joaquim (SC) foi criado em 1961 e, mesmo após mais de 50 aniversários, nunca ganhou um Plano de Manejo. Agora, com o documento em fase final de elaboração, o parque poderá comemorar seu 56º ano em grande estilo. O Plano de Manejo é um dos pilotos da nova abordagem do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que busca dar mais agilidade e eficiência ao planejamentos das unidades de conservação (UCs).

Gestor do parque desde novembro de 2014, o biólogo Paulo Santi Cardoso da Silva, afirma que entre as diretrizes de planejamento que estão sendo definidas, o uso público é uma das prioridades. Em 2016, São Joaquim foi o décimo parque nacional mais visitado. Tudo isso com um único atrativo aberto ao público. A expectativa do gestor é não apenas potencializar o turismo na unidade, mas também ordená-lo. “O zoneamento do parque e suas normas foram elaborados para possibilitar um uso público bem diversificado e amplo, que contemple vários perfis de visitação”, conta Paulo, que acredita que o visitante pode ser um grande aliado da conservação.

Leia a entrevista que o WikiParques fez com o gestor Paulo Santi:

WikiParques: O Parque Nacional de São Joaquim está entre os parques nacionais mais visitados do Brasil. Ainda assim, a unidade já teve sua visitação suspensa e ainda hoje não opera com todo seu potencial turístico. Qual o cenário da visitação hoje no parque?

Paulo Santi: Eu assumi a gestão no Parque Nacional de São Joaquim em novembro de 2014, no momento em que estava sendo decidido pelo ICMBio o fechamento parcial da unidade e das trilhas, com a suspensão de todas as atividades previstas na Portaria n° 85 (de 25 de julho de 2012), exceto a subido para o Mirante do Morro da Igreja.

Antes do fechamento parcial, o parque possuía cinco trilhas, sendo duas de longo curso. Hoje, nós estamos com duas trilhas abertas sendo operadas: a da nascente do Rio Pelotas, com 9 quilômetros ida e volta; e a da Pedra Furada, localizada no Morro da Igreja, que possui cerca de sete quilômetros e trechos de subida bem íngreme. Essas duas trilhas estão sendo operadas de forma experimental para coleta de dados pro Plano de Manejo da unidade conservação. Os visitantes que vão para essas trilhas precisam fazer agendamento, e apresentar o termo de responsabilidade e a autorização do grupo no portal de entrada do parque.

A nossa prerrogativa agora é recuperar a operação desses atrativos de forma parcial, porque estamos em pleno processo de elaboração do nosso Plano de Manejo, o que demanda tempo e esforço da nossa equipe. Não teríamos perna para cobrir a operacionalização de todas as atividades. Portanto, estamos fazendo a retomada aos poucos. Já reabrimos duas trilhas, que eu diria que são as mais importantes, e estamos conciliando as demandas do plano, sem perder a capacidade de gestão desse uso.

Nevoeiro no Parque Nacional de São Joaquim. Foto: Raphel Sombrio/WikiParques

Nevoeiro no Parque Nacional de São Joaquim. Foto: Raphel Sombrio/WikiParques


Existe alguma previsão ou expectativa para essas outras trilhas?

Hoje nós monitoramos e implementamos visitação apenas nessas duas trilhas. As outras trilhas estão em stand by. Pretendemos trabalhar com elas a partir de um plano de visitação mais específico que iremos iniciar nos próximos meses, como consequência do Plano de Manejo. Essas trilhas já são rotas consolidadas entre os montanhistas, portanto estamos estudando possibilidades de operacionalizá-las e prevendo possíveis concessões para otimizar o uso nesses atrativos.

Existe alguma concessão já prevista para unidade?

Sim. O atrativo do mirante do Morro da Igreja, sozinho, coloca o parque na posição de 10º mais visitado do Brasil, de acordo com o ranking do ICMBio de 2016. Foram cerca de 110 mil visitantes no ano apenas no mirante, com um potencial enorme de crescimento caso haja a concessão de serviços no atrativo, para dar maior vazão ao turismo. Várias pessoas não conseguem subir porque existe um limite diário de aproximadamente 250 veículos. Como forma de contornar isso e ordenar os carros que circulam dentro da unidade, estamos prevendo o Serviço de Transporte Único, que seria oferecido por uma concessionária para permitir o acesso dos visitantes ao atrativo. Seria algo similar ao formato das vans do Parque Nacional da Tijuca, que levam os visitantes ao Cristo Redentor, mas numa escala bem menor. O Morro da Igreja é um atrativo com potencial regional muito grande e que está em uma situação parecida à do Corcovado, com relação à declividade da estrada, e a necessidade de diminuir o número de veículos e regrar o acesso. Porque em dias de alta temporada a subida é desenfreada. Informações prévias levam a crer que vans sejam a melhor opção de veículo, mas isso é algo que ainda será trabalhado no plano de uso público.

A princípio estamos pensando nesse modelo de concessão de serviços apenas no Morro da Igreja e essa oportunidade está no Plano de Manejo. Por enquanto nós não estamos pensando em outros locais porque eles não possuem uma visitação tão acentuada.

Como é está sendo participar desse processo de elaboração e dessa nova abordagem do ICMBio?

A nova abordagem para elaboração do Plano de Manejo é bem interessante por possuir um formato mais resumido e mais rápido, ao mesmo tempo em que agrega informações imprescindíveis para o planejamento da unidade. Se tornando um documento mais acessível ao público em geral, pelo seu próprio formato mais enxuto. E esse processo conta com a participação de diversos setores da sociedade civil, de proprietários de terra, trades turísticos, pesquisadores e montanhistas, além da equipe do ICMBio.

Esse processo trouxe uma grande demanda da gestão, até porque é um formato novo dentro do ICMBio, que foi inspirado no modelo usado nos parques americanos, e que está sendo adaptado ao contexto das unidades de conservação brasileiras. O Parque Nacional de São Joaquim é um dos pilotos dessa nova abordagem e a COMAN (Coordenação de Elaboração e Revisão do Plano de Manejo) tem dado total atenção ao processo e nos auxiliado para permitir que a equipe do parque consiga lidar com as outras atividades rotineiras da UC.

O cartão-postal do parque, a Pedra Furada. Foto: Rui Paranhos/WikiParques

O cartão-postal do parque, a Pedra Furada. Foto: Rui Paranhos/WikiParques


Alguma previsão de quando ficará pronto o Plano de Manejo?

Nós estamos na fase final do Plano de Manejo. A primeira versão já foi apresentada aos participantes, foi avaliada e está sendo consolidada. Nós estamos prevendo uma apresentação na sede em Brasília em junho. Caso a lei (Projeto de Lei de Conversão n°4/2017, baseado na Medida Provisória 756/2016), que prevê a redução dos limites do parque, seja aprovada, pode haver um atraso de alguns meses nesse cronograma, porque seria necessário atualizar as informações do plano.

Já o plano de uso público está numa fase mais preliminar, iremos realizar a primeira oficina no final de junho para refinar a metodologia, organizar e definir um cronograma exato, com prazos de execução.

Nessa nova configuração de Plano de Manejo, qual a função do plano de uso público?

O Plano de Manejo nesse novo desenho, baseado no Foundation Document, fornece direcionamentos de necessidades de planejamento, de prioridade baixa, média ou alta. Ou seja, o Plano de Manejo vai direcionar a elaboração desse documento de uso público, mas são dois planos separados. Esse é o primeiro plano de uso público a ser desenvolvido nessa nova abordagem, junto com a Reserva Extrativista Marinha do Soure (PA) e o Parque Nacional do Iguaçu (PR), que está revisando seu Plano de Manejo. A ideia é que eles funcionem como acessórios que darão regramento ao que foi estabelecido no Plano de Manejo.

E como foi pensado o uso público dentro do próprio Plano de Manejo?

Todas as trilhas existentes no parque foram consideradas no zoneamento e as zonas respeitaram todos os caminhos consolidados na unidade. Ou seja, não colocamos nenhuma zona intangível por onde passa uma trilha, por exemplo. O zoneamento do parque e suas normas foram elaborados para possibilitar um uso público bem diversificado e amplo, que contemple vários perfis de visitação. Todas as trilhas e travessias estão no Plano de Manejo, não apenas as que estavam previstas na Portaria n° 85, mas todos os caminhos consolidados. Esse detalhe foi bem pensado para não engessar o uso público na unidade. Nós temos uma zona de uso intensivo considerável dentro dos aproximadamente 50 mil hectares do parque.

Como foi gerir a unidade sem plano de manejo? E quais suas expectativas sobre finalmente ter o documento?

Gerir uma UC sem Plano de Manejo é sempre um desafio. A rotina do gestor envolve procurar alternativas e soluções para vários problemas, e lidar com essas demandas da gestão sem um documento de planejamento específico e de longo prazo não é um cenário fácil.

Acredito que o Plano de Manejo irá permitir dar mais foco à gestão de questões relevantes, além da obtenção de dados necessários, da execução de tarefas e de planejamentos previamente definidos. O documento também fará o zoneamento da unidade, previsto no SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), que irá ajudar na gestão para prevermos diferentes gradações de uso e as normas de cada uma dessas zonas. Com certeza a gestão ficará melhor definida institucionalmente, com menos espaço para entendimentos pessoais, que variam da cabeça do gestor. Haverá uma institucionalização da gestão do parque.

Registro de graxains, espécies típicas da fauna no Parna São Joaquim. Foto: Paulo de Carvalho/WikiParques

Registro de graxains, espécies típicas da fauna no Parna São Joaquim. Foto: Paulo de Carvalho/WikiParques


Quais os principais problemas e desafios do Parque Nacional de São Joaquim e de que forma o uso público pode ser um aliado?

Acredito que, com a consolidação do uso público, uma das primeiras consequências é o sentimento de pertencimento da comunidade local e das pessoas que visitam o parque. Esses visitantes passam a reconhecer aquele patrimônio e até mesmo começam a se engajar em pautas pró Parque Nacional de São Joaquim. Essa é uma grande consequência positiva da consolidação do uso público. A visitação vem engrandecer a unidade. Ao ter conhecimento sobre a unidade, as pessoas passam a divulgá-la de maneira positiva e a UC passa a ser parte da história delas. Isso é muito positivo. Com relação aos outros problemas, como por exemplo, a caça ilegal, onde existe pesquisa e visitação, esse público naturalmente tende a não estar tão presente. Essa é outra possível consequência positiva: inibir as atividades ilícitas e a entrada de infratores.

São Joaquim é uma unidade que precisa utilizar todo o seu potencial para visitação, tanto o Morro da Igreja quanto as travessias e trilhas. Hoje ele não está utilizando nem 15% do seu potencial turístico. E essa consolidação da visitação vai prestar um serviço público essencial para preservação do meio ambiente e manutenção de hábitos saudáveis, que pessoas que percorrem as áreas naturais tendem a incorporar.

 

 

 

 

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