Robson Rodrigues, gestor da Floresta Nacional de Brasília. Foto: Duda Menegassi

Robson Rodrigues, gestor da Floresta Nacional de Brasília. Foto: Duda Menegassi


Prestes a comemorar seu 18º aniversário, a Floresta Nacional de Brasília (DF) está em festa. Motivos não faltam: nos últimos dois anos, a equipe da unidade de conservação (UC) ganhou o apoio dos ciclistas, aliados cheios de disposição. A “turma do pedal” se debruçou sobre a questão do uso público e como melhorar os serviços oferecidos ao visitantes. De lá para cá, ações para dar mais segurança e infraestrutura foram feitas e, nesse sábado (10/06), está programado mais uma cereja do bolo: a inauguração de um circuito de mountain bike com 45 quilômetros, todo sinalizado.

Gestor da Floresta Nacional (Flona) desde 2013, o biólogo Robson Rodrigues comemora a consolidação do uso público na unidade, que contabilizou 33 mil visitantes em 2016. “Nós sempre tivemos visitação, principalmente pelo público esportista, corredores e ciclistas, mas o uso público não era prioridade da agenda. Agora, nós estamos tentando virar esse jogo, a partir da aproximação com os nossos principais visitantes: os ciclistas”, lembra Robson. Além de visitar, os ciclistas também decidiram ajudar e se tornaram mão-de-obra voluntária para ajudar na própria implementação do Circuito Flona.

Leia a entrevista que o WikiParques fez com Robson:

WikiParques: Essa é a maior e uma das únicas trilhas de mountain bike implementada e sinalizada em unidade de conservação. De onde surgiu essa demanda?

Robson Rodrigues: Os ciclistas são os principais frequentadores da Floresta Nacional de Brasília. Ano passado, por exemplo, recebemos aproximadamente 33 mil visitantes, que espontaneamente deixaram seu nome no nosso portão principal e, desse total, a grande maioria era ciclista. Os ciclistas já elegeram a nossa área como um ponto local para pedalar, até porque existem poucas restrições na unidade ao pedal. Recebemos muitos ciclistas não só do entorno, aqui de Brasília, mas de todo Distrito Federal. Quando nós percebemos que havia esse interesse natural pela prática do esporte, nós começamos a nos reunir com as principais lideranças dos grupos de ciclismo, para ter uma interface com esse principal visitante e entender quais suas principais demandas, e também o que podíamos fazer conjuntamente. Esse movimento de aproximação e diálogo começou há dois anos. Nosso objetivo era identificar as necessidades e melhorar o serviço prestado pela Flona para eles. Dessa iniciativa surgiu a necessidade de fazer algumas melhorias.

Quais foram as principais reivindicações feitas pelo grupo?

Uma das primeiras reclamações deles foi a segurança. Portanto, fizemos um monte de reuniões com a Polícia Militar e com a Secretaria de Segurança com o objetivo de melhorar a segurança na Flona. Outra reivindicação foi a melhoria da travessia dos córregos na unidade. Para resolver isso, aproveitamos a parceria com os próprios ciclistas para construir duas pontes. Usamos madeira da Flona e a mão-de-obra deles como voluntários, além da contribuição de outras pessoas na compra de materiais para construção como parafuso, rosca e barra rosqueada. Essas duas pontes já foram construídas e foram construídas por eles. Foi um trabalho voluntário que aconteceu de forma espontânea. Hoje, nós oficializamos esse trabalho e a UC entrou no Programa de Voluntariado do ICMBio.

Ciclistas partindo pela trilha na Flona Brasília. Foto: Duda Menegassi

Ciclistas partindo pela trilha na Floresta Nacional de Brasília. Foto: Duda Menegassi

 

E como começou o processo para implementação e sinalização da trilha de mountain bike?

A Coordenação-Geral de Uso Público e Negócios (CGEUP) também percebeu que a Floresta Nacional de Brasília era um local onde havia esse grande interesse pelo ciclismo e pelo mountain bike, e passou a nos apoiar na implementação desse uso em 2017. Isso significou uma verdadeira mudança de paradigma dentro da Flona. E, com o apoio da CGEUP, decidimos investir na sinalização das trilhas. Esse era um grande problema aqui. Apesar de existirem várias trilhas, não havia sinalização. Um ciclista que conhece bem, anda sem problemas, mas um ciclista novato, ou que está vindo pela primeira vez, ou mesmo que conhece pouco e não tem intimidade com as nossas trilhas, acabava se perdendo. Daí surgiu a ideia de sinalizar. Nós estamos sinalizando um percurso total de aproximadamente 45 quilômetros. Dentro desse circuito maior, existem cinco possibilidades de retorno para sede, o que diminui o trajeto em percursos menores de 30, 20, 11 e 5 quilômetros. Dessa forma, é possível escolher, de acordo com a sua disposição, qual a distância o usuário quer fazer dentro dessa trilha sinalizada, sem risco de se perder e com sinalização de quilometragem ao longo do caminho. Além disso, na entrada o visitante irá receber um folder com o mapa, que ele poderá levar, ou mesmo tirar uma foto com o celular do mapa que ficará exposto na entrada, com todos os percursos.

Essas trilhas já existiam?

Sim. Existem mil possibilidades de trilhas de bicicleta aqui dentro. Nós reunimos os ciclistas para decidir qual trilha iríamos sinalizar. Dessa reunião, nasceu o trajeto que foi sinalizado, o Circuito Flona, como nós estamos chamando. Em seguida, realizamos uma capacitação, ministrada pelo Pedro Menezes, diretor da CGEUP, para que nós entendêssemos a lógica da sinalização, como que ela seria feita, seus princípios e regras; e nivelar o entendimento de todos. No próprio curso, houve uma experiência prática, da qual já saímos com um trecho curto sinalizado. Em meados de abril, começamos os mutirões de sinalização. Nessa semana nós estamos nos retoques finais, colocando algumas placas e mourões onde não havia suporte para colocar seta. A inauguração oficial vai ser no aniversário da Flona, dia 10 de junho (amanhã), e estamos com uma programação extensa para comemorar a data.

Também é possível caminhar por essa trilha? Ela é compartilhada?

Alguns trechos do circuito, como o percurso menor, de 5 km, poderiam ser compartilhados com os pedestres. Até a próxima perna, de 11, talvez também possa ser compartilhada. Mas nós não nos preocupamos muito, porque os demais percursos são mais difíceis de serem compartilhados com caminhantes, por serem mais longos. Mesmo nesse trecho de 5km, onde há essa possibilidade do uso compartilhado, não há muita chance de conflito porque os ciclistas se concentram mais nos finais de semana e os pedestres nos dias de semana, que são quando as escolas trazem seus alunos. Portanto, não chega a haver um conflito de uso da trilha. Mas a ideia é que alguns trechos do circuito possuam sim esse uso compartilhado.

O que caracteriza uma floresta nacional, como categoria de unidade de conservação?

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) está dividido em dois grandes grupos: as de proteção integral e as de uso sustentável. A Floresta Nacional é uma UC de uso sustentável. E dentro desse grupo, existem as florestas nacionais localizadas na Amazônia e as do restante do país. Na Amazônia, todas as Flonas têm potencial para extração de madeira por meio de manejo florestal, inclusive muitas concessões já foram realizadas para empresas explorarem a madeira dentro de florestas nacionais amazônicas. As florestas do centro-sul não têm esse potencial madeireiro tão forte para concessão, mas elas permitem plantio de pinus, eucalipto e outras espécies exóticas; permitem você fazer o teste com outras madeiras de interesse comercial para o manejo – nativas ou exóticas; e permitem pesquisa científica, educação ambiental e o uso público, como outras UCs. Ou seja, é uma categoria na qual a grande peculiaridade está nessa possibilidade do manejo madeireiro.

Na Flona existe esse manejo e exploração da madeira?

A Floresta Nacional de Brasília, no momento, não possui nenhum projeto de manejo madeireiro. Nós temos talhões de pinus, talhões de eucalipto e alguns fragmentos de Cerrado, o bioma nativo da região. O pinus e o eucalipto não têm sido manejados, devido a questões administrativas e burocráticas. Porque esses plantios foram herdados pela unidade, eles já existiam no território. E existe um impasse burocrático com relação à posse da madeira, se ela é de posse do ICMBio ou não. Uma frente que tem sido mais trabalhada na Flona é a recuperação de áreas degradadas de Cerrado a partir de um consórcio de técnicas, tradicionais e modernas, como o plantio direto de sementes de espécies nativas.

Silhueta de uma coruja-buraqueira na Floresta Nacional de brasília. Foto: Duda Menegassi

Silhueta de uma coruja-buraqueira na Floresta Nacional de Brasília. Foto: Duda Menegassi

 

E o uso público, em si, é uma iniciativa recente?

A vertente do uso público sempre esteve presente na Floresta, desde sua criação, principalmente aqui na área 1. Nós sempre tivemos o atleta, o corredor treinando e o ciclista pedalando aqui. Sempre houve esse interesse dos esportistas pela Flona. Mas eu acho que a Flona nunca tratou muito bem esse público. Por vários motivos, como o apelo de outras demandas prioritárias que exigem muito tempo da gestão, como a ocupação irregular do solo. Com isso o uso público ficou um pouco de lado. Agora, nós estamos tentando virar esse jogo. Nos últimos dois anos, essa pauta tem tido mais espaço dentro da unidade a partir da aproximação com os nossos principais visitantes, os ciclistas. E mais recentemente, com o apoio da sede (do ICMBio, em Brasília), conseguimos dar esse salto ainda maior para melhorar a infraestrutura de apoio à visitação. Estamos em busca de atender melhor esse público, projetar mais a Flona e exigir mais atenção do ICMBio para a continuidade que essas ações precisam ter no futuro.

Como tem sido a resposta da sociedade a esse esforço?

A cada ano que passa, a visitação aumenta. Nós temos dados desde 2007-2008, quando iniciamos a contagem, e a visitação só cresce. Esse número é o do visitante que entra pelo portão principal. Mas dada a nossa proximidade com a área urbana, existem pelo menos outras cinco a dez entradas, onde ele entra às vezes por um buraco na cerca, e esse visitante não vai passar pela contagem. Portanto, é seguro dizer que nossa visitação é maior do que os 33 mil visitantes computados. Fora isso, existe o voluntariado. Percebemos que o ciclista que frequenta a Flona com assiduidade, gosta da unidade, então, para ele, ajudar a Flona é uma coisa legal. Há sempre uma resposta muito boa quando propomos um trabalho voluntário. Acredito que esse aumento da visitação, somado ao engajamento dos voluntários, equivale a esse retorno positivo da sociedade sobre a abertura da unidade.

Além do Circuito Flona, que será inaugurado neste sábado (10), existem outros projetos de uso público em vista para o futuro?

Sim, muitas coisas estão surgindo. Nós estamos percebendo esse potencial da Flona. Algo que nós conversamos é a possibilidade de uma área de camping, possivelmente cedida à alguma empresa – não sei. Sabemos até qual seria o lugar, aqui próximo da sede, com acesso de carro. Ter uma área de camping dentro da cidade é uma coisa bacana e para quem visita Brasília, é uma alternativa interessante. Outra possibilidade futura é aumentar esse circuito, alterar o percurso, ampliar os 45 quilômetros, ou mesmo fazer uma nova trilha. Nós estamos com a intenção de sinalizar também um percurso separado para corredores, de 5 e 10 quilômetros. Para isso nós contamos com o apoio do Instituto Joaquim Cruz, um parceiro antigo nosso. O Joaquim Cruz, ganhador do ouro olímpico nos 800 metros em 1984, começou a treinar aqui dentro da Flona.

A Floresta Nacional de Brasília é dividida em quatro setores, esse circuito de mountain bike é apenas em um setor. Como é a visitação no resto da unidade?

Apenas a Flona 1 está aberta à visitação e com o uso público implementado. Na Flona 2 nós lidamos com um problema de assentamento e ocupação irregular. As áreas 3 e 4 são perspectivas para expandir o uso público no futuro.

Legenda: As quatro áreas que compõem a Flona Brasília. É possível observar a proximidade das áreas 1 e 2 com o centro de Brasília. Contornado em verde, o Parque Nacional de Brasília.

Legenda: As quatro áreas que compõem a Flona Brasília. É possível observar a proximidade das áreas 1 e 2 com o centro de Brasília. Contornado em verde, o Parque Nacional de Brasília.


Como é fazer a gestão de um território fragmentado?

É complexa. A gestão de unidades descontínuas não é simples. Nossa base está toda aqui, nossa unidade administrativa está toda aqui, na área 1, e nós precisamos nos deslocar para as outras áreas para conseguir acompanhá-las mais de perto. Isso dá um grau de complexidade à fiscalização, mas nós vamos nos adaptando a essa dificuldade. O interessante é que a Flona está dentro da APA Bacia do Rio Descoberto, que também é uma UC federal. Então a gestão das duas unidades acontece de forma compartilhada, com o mesmo chefe. Isso facilita o trabalho, porque a própria Flona surgiu como uma estratégia de gestão da APA, para proteger as principais nascentes que vertem para o Lago do Descoberto, o principal manancial de abastecimento público do DF.

Qual o tamanho da equipe responsável pela fiscalização das unidades?

Somando a equipe da Flona com a APA [área de proteção ambienta] somos 15. Sendo cinco analistas ambientais, dois da Flona e três da APA. Os demais são técnicos, a grande maioria em vias de se aposentar.

Quais os principais desafios de fiscalização dessa área, até por ela ter essa característica fragmentada?

Nosso principal problema e desafio de fiscalização é a ocupação irregular do solo. A Flona é uma unidade urbana, estamos muito próximos da cidade, e existe uma tendência e tentativa de ocupação irregular da UC. Nós temos mais de 4 mil pessoas morando na área 2 hoje. Na criação da Flona, já havia um assentamento rural, criado pelo GDF (Governo do Distrito Federal). Esse assentamento, até mesmo antes da Floresta ser criada, já sofria pressão para urbanização de alguns lotes e esse problema se agravou com o passar dos anos. A criação da Flona, sobreposta a esse assentamento, não foi suficiente para impedir que o assentamento tivesse seus lotes convertidos em lotes urbanos. Hoje nós temos um problema sério na UC, principalmente na área 2, que é ocupação irregular do solo. Para resolver isso é necessária uma articulação muito estreita com o governo local, porque foram eles que criaram o assentamento. A Justiça Federal, inclusive, deu uma sentença em 2015, em que obriga o GDF a retirar essas ocupações e entregar a área para União, desobstruída. Porque as terras ainda não foram nem repassadas do GDF para União. Dezoito anos já se passaram, desde a criação da Flona de Brasília, e a maior parte das terras ainda estão sob titularidade do GDF.

 

 

 

Comentários

comentários