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Edson Sorrentino, o montanhista que irá desbravar a Trilha Oiapoque x Chuí. Foto: Divulgação


Doze de janeiro de 2018. Pode anotar a data. Daqui a 50 anos, quando alguém fizer uma nova retrospectiva da história das trilhas de longo curso no Brasil, esse dia vai inevitavelmente figurar entre as datas mais significativas. Amanhã cedo, na barra do Chuí, extremo sul do país, Edson Sorrentino começa a jornada que o levará, propulsionado somente por seus pés, até a foz do rio Oiapoque, no Amapá.

Sorrentino é um experimentado montanhista do interior de São Paulo que, em seus 58 anos de vida, já colocou no currículo subidas ao Kilimanjaro e ao Pico da Neblina entre outros feitos dignos de nota. Sabe o que está fazendo e possui plena noção das dificuldades da empreitada, que planeja completar em 500 dias.

Para a comunidade montanhista e para os conservacionistas, a caminhada de Sorrentino é a realização de um sonho coletivo, que consiste em ligar os principais atrativos da costa brasileira por trilhas. Nesse sentido, Sorrentino não está sozinho. Já na largada, vai contar com o apoio da Federação Gaúcha de Montanhismo e do Movimento Caminho das Araucárias que vão ajudá-lo na logística e enviarão alguns associados para caminhar em sua companhia em trechos especialmente escolhidos. Também as unidades de conservação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de diversos estados e municípios brasileiros vão ajudá-lo no caminho, à medida em que seu trajeto conectá-las.

Conectar as áreas protegidas não é algo desprovido de razão. Muito pelo contrário, a caminhada de Sorrentino tem o mérito de mostrar aos brasileiros que é possível conceber uma trilha de longo curso ao longo da faixa costeira brasileira. Um caminho natural avançando em meio a vegetação nativa, (ainda que em uma faixa estreita especialmente reflorestada para esse fim), se bem feito, além de um equipamento de recreação, pode servir também como um conector de fauna entre áreas núcleo que, de outra forma, estariam isoladas.

A fragmentação dos habitats é hoje a principal causa da perda de biodiversidade, pois parcelas de terrenos naturais excessivamente pequenas limitam a quantidade de indivíduos de uma população e dificultam a troca genética das espécies. Para mitigar o problema há duas soluções principais, o reflorestamento em larga escala e o estabelecimento de corredores de fauna entre áreas núcleo. Em linhas gerais, corredores podem ser classificados como contínuos ou descontínuos (Stepping stones). No segundo caso, estamos falando de áreas vegetadas próximas que permitem a movimentação de animais, sobretudo avifauna.

A intervenção antrópica é a maior causa recente de fragmentação de habitats, seja com grandes interrupções entre os fragmentos, a exemplo de áreas urbanas, pastos ou monoculturas, seja com intervenções que rasgam um habitat contínuo, como estradas, linhas férreas, dutos ou linhões. Para mitigar os efeitos da fragmentação no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente criou em 2017 o Projeto “Conectividade de Paisagens”, sob cuja égide o ICMBio está sugerindo a implementação de uma Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso planejadas como equipamentos de recreação que, se bem implementadas, também funcionarão como corredores ecológicos funcionais, permitindo o movimento de fauna e a troca de fluxo genético entre unidades de conservação e outras áreas núcleo.

Inicialmente, a Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso será composta de quatro trilhas nacionais:

(1) Trilha Oiapoque x Chuí ou Corredor Litorâneo (ligando o extremo sul do Brasil à foz do Oiapoque, no extremo norte do litoral brasileiro);

(2) Trilha Estrada Real (ligando o Rio de Janeiro/Mambucaba/Paraty a Diamantina/ Goiás Velho);

(3) Caminho do Peabiru (ligando o Parque Nacional do Iguaçu ao litoral paranaense);

(4) Caminho dos Goyazes (ligando o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros ao Parque Estadual goiano da Serra Dourada com possibilidade de se estender até a Bahia).

Mapa geral

Os quatro eixos de trilha de longo curso no Brasil. Imagem: Divulgação/ICMBio


Segundo o planejamento, cada Trilha de Longo Curso nacional será formada a partir do somatório de trilhas de longo curso regionais, que terão identidade, planejamento, operação, estratégia de geração de emprego e renda e governança individuais. Cada Trilha Nacional será, portanto, o resultado da soma sucessiva de trilhas regionais e locais, a exemplo da Trilha Transcarioca (RJ) e do Caminho de Cora Coralina, em que o final de uma será também o início da seguinte. Assim, a governança da Trilha Nacional será uma federação das governanças de cada uma das Trilhas Regionais e Locais.

Seu ponto de estruturação inicial será as trilhas já existentes e em operação. Algumas unidades de conservação do ICMBio (e parceiros) ao longo dessas trilhas já estão recebendo apoio e capacitação da Sede em Brasília, para que aprendam a sinalizar o traçado, manejar o solo, gerir a governança, trabalhar com voluntariado e monitorar resultados, entre outras atividades. Em 2017, no âmbito das quatro trilhas de longo curso nacionais propostas, foram capacitadas mais de trezentas pessoas entre servidores das três esferas de governo e parceiros com oficinas, cursos no Brasil e/ou cursos no exterior.

Sob um primeiro olhar, muitos imaginarão que uma trilha tão longa é mera peça de ficção, afinal, a Trilha Transcarioca, primeira trilha de longo curso do Brasil, com meros 183 km, demorou 20 anos para sair do papel. Por outro lado, a Appalachian Trail nos Estados Unidos, considerada a mãe de todas as trilhas de longo curso, foi idealizada em 1921 mas só foi inaugurada em 1937. Assim, é importante entender que se trata de um processo longo, mas que é possível de ser completado.

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Caminho das Araucárias, uma das trilhas regionais que irá construir a Trilha Oiapoque x Chuí. Foto: Jeremias Freitas


Trilhas longas mais novas, como as transeuropeias, são constituídas sobre bases mais modernas, pois são pensadas para terem relevância local, regional e nacional. Assim, seu planejamento busca que cada trecho de até 20 km possa ser percorrido individualmente, por alguém que só tenha um dia livre disponível. Por outro lado, se trilhas muito longas como as trilhas transeuropeias, raramente serão completadas por caminhantes, elas servem mais como referências ou colunas vertebrais que permitem a implementação de grandes corredores. Nesse sentido, o planejamento privilegia as trilhas regionais, com até 300 km de distância, que são objetivos mais realistas para a maioria dos caminhantes, e podem ser percorridas em um período normal de férias. Esse tamanho também facilita a organização regional da governança, da estrutura de manutenção, da divulgação e da geração de emprego e renda dentro de um mesmo espaço geográfico, conduzindo consequentemente a um maior sentimento de pertencimento.

Dessa forma, uma trilha de dimensões maiores, é mais fácil de implementar quando resulta da soma de diversas trilhas regionais, com identidades e governanças próprias, embora mantenham padronização em sua sinalização e manejo. Primeiro consolidam-se as trilhas regionais cuja implementação é mais fácil por passarem em unidades de conservação ou por terem grupos de apoio mais atuantes, para em um segundo momento, ser feito um esforço de criar trilhas de conexão, entre as regionais já estabelecidas, por locais de implementação mais difícil, seja pela realidade fundiária do terreno ou pela falta de atratividade cênica.

No Brasil, a ideia é seguir esse modelo de planejamento e implementação. No caso específico da Trilha Oiapoque x Chuí, está previsto que as Trilhas Regionais em diversos estágios de estruturação ou já em operação que, inicialmente, formarão sua espinha dorsal incluem:

(1) Rota dos Faróis (ligando Chuí a Cassino);

(2) Caminho das Araucárias (ligando o Parque Estadual gaúcho do Caracol ao Parque Nacional de São Joaquim);

(3) Trilha Transfloripa (ligando o Parque Estadual catarinense da Serra do Tabuleiro à Ilha de Santa Catarina e a Ilha à APA do Anhatomirim);

(4) Trilha do Litoral Paranaense (ligando a APA de Guaraqueçaba ao Parque Estadual paulista da Ilha Cardoso);

(5) Trilha do Ouro (ligando o Parque estadual paulista da Serra do Mar ao Parque Nacional Serra da Bocaina);

(6) Caminho da Mata Atlântica (ligando o Parque Nacional de Aparados da Serra ao Parque Estadual do Desengano);

(7) Trilha Transmantiqueira (ligando o Parque Estadual paulista de Campos do Jordão ao Parque Estadual mineiro da Serra do Papagaio, passando pelo Parque Nacional de Itatiaia e pela APA da Mantiqueira);

(8) Trilha Transcarioca (ligando o Parque Estadual fluminense da Pedra Branca ao Parque Nacional da Tijuca e, por meio da Baía de Guanabara, à APA de Guapimirim);

(9) Caminhos da Serra do Mar (ligando a APA de Guapimirim ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos à APA de Petrópolis e ao Parque Estadual fluminense dos Três Picos);

(10) Trilha Passos de Anchieta (ligando o Parque Nacional do Caparaó à Reserva Biológica de Comboios);

(11) Rota do Descobrimento (ligando o Parque Nacional dos Abrolhos ao Refúgio de Vida Silvestre de Una);

(12) Trilha da Costa dos Corais (atravessando a APA da Costa dos Corais);

(13) Rota das Emoções (ligando o Parque Nacional de Jericoacora ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses);

(14) Rota das Reentrâncias Maranhenses (ligando São Luiz a Belém pela APA das Reentrâncias Maranhenses e as reservas extrativistas da região do Salgado Paraense);

(15) Travessia Aquática do Arquipélago do Marajó (ligando Belém a Macapá);

(16) Rota Aventura Amazônica (ligando Macapá ao Oiapoque).

A caminhada de Sorrentino vai aproveitar essas trilhas de longo curso regionais para ligar unidades de conservação federais, estaduais, municipais e privadas ao longo da nossa costa, mostrando que é possível estabelecer uma trilha de longo curso nacional entre os extremos do litoral brasileiro.

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Cânion do Parque Nacional de Aparados, um dos destinos no caminho de Sorrentino. Foto: Pedro Menezes

O ano em que Sorrentino começa sua jornada, coincidentemente, marca também o cinquentenário da criação do Sistema Americano de Trilhas de Longo Curso. Inicialmente lançado em 1968, com duas trilhas, a Appalachian Trail  de 3.600 km e a Pacific Crest Trail¹, de 4270 km, o Sistema conta hoje com três categorias de trilhas de longo curso: National Scenic Trails, National Recreation Trails e National Historic Trails, que juntas somam mais de 100.000 quilômetros de trilhas sinalizadas e manejadas, cujo emaranhado de caminhos verdes formam a maior rede de corredores ecológicos do mundo².

Nas últimas cinco décadas o conceito transbordou as fronteiras dos Estados Unidos e chegou a quase todos os países. Atualmente, há no mundo mais de 5.000 trilhas de longo curso. Como mencionado, na Europa existe inclusive um sistema com 12 trilhas transeuropeias. Mesmo em países de desenvolvimento próximo ao do Brasil como Dominica e África do Sul elas existem.

Agora, parece ter chegado finalmente a hora do Brasil levantar do berço esplêndido e começar a dar os primeiro passos para entrar no grupo! Desejamos a Edson toda sorte e saúde para completar o sonho, que é dele, mas também é de uma multidão de brasileiros amantes da conservação e do montanhismo.

Boa Trilha Edson! Estaremos todos torcendo pelo seu sucesso.

 

¹ Note-se que a Pacific Trail que vai da fronteira do México à fronteira canadense, ligando no processo 32 unidades de conservação federais, não é muito diferente em conceito da Trilha Oiapoque x Chuí, mas enquanto uma existe há 50 anos, a outra começa a nascer hoje.

² Nesse sentido, é interessante notar que a Appalachian Trail é o maior mega-transecto do mundo.

 

 

 

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