Ernesto Castro. Foto: Duda Menegassi

Ernesto Castro. Foto: Duda Menegassi

Com quase 3 milhões de visitantes todo ano, o Parque Nacional da Tijuca (RJ) é a unidade de conservação mais visitada do país. Entretanto, boa parte deles talvez não saiba que faz parte desse número. Concentrados apenas na famosa estátua de braços abertos que coroa o Corcovado, esquecem que o morro e o monumento também fazem parte do parque. A unidade coleciona outros símbolos cariocas, como a Pedra da Gávea e a Floresta da Tijuca, e representa a síntese que define a Cidade Maravilhosa: a mescla do urbano com o natural.

A beleza da paisagem de uma cidade rodeada pelo verde da Mata Atlântica camufla o desafio que é gerir uma unidade de conservação pressionada por todos os lados por uma metrópole. Responsável pela gestão do Parque Nacional da Tijuca desde 2012, o biólogo Ernesto Castro sabe bem o tamanho deste desafio. “Nós estamos dentro de uma metrópole, com cem comunidades no entorno imediato e com o maior atrativo turístico, então gerimos também turismo de massa. Tudo aqui é gigantesco e o trabalho por trás é proporcional”, afirma. Nesta entrevista, o gestor fala ainda sobre o desafio da segurança e suas expectativas para Trilha Transcarioca, que será oficialmente inaugurada neste sábado (11/02).

Confira a seguir a entrevista que o WikiParques fez com Ernesto Castro:

WikiParques: Qual a importância do uso público como ferramenta de conservação?

Ernesto Castro: Em linhas gerais, eu acredito que o uso público é a principal forma de ganhar o apoio da sociedade. É trazer as pessoas para conhecerem a unidade. Os parques são unidades de conservação (UC) privilegiadas em relação a isso, mas outras categorias de UC também permitem visitação. O uso público é o nosso grande cartão de visitas para sociedade, é ali que a gente tem que ganhar a batalha por atenção, por apoio, por orçamento, por servidores e por uma melhor estrutura para manter essas unidades. Unidades muito fechadas não sensibilizam ninguém. Além disso, o próprio controle social também é uma ferramenta, porque a presença do visitante gera uma cobrança aos órgãos públicos. Tanto que quando cortam a luz por falta de pagamento em um parque, a luz volta muito mais rápido do que quando ela é cortada em uma Rebio [Reserva Biológica]. Porque tem sempre alguém para reclamar e isso é fundamental.

A cidade entre florestas. Foto Peterson de Almeida

A cidade entre florestas. Foto Peterson de Almeida

Qual a importância de fazer os visitantes entenderem que estão dentro de um parque nacional?

Esse é um dos grandes desafios. Primeiro porque o parque possui ícones muito famosos de visitação como o Corcovado, a Vista Chinesa e a Pedra da Gávea. Passar a mensagem de que tudo isso é uma coisa só é bem complexo. Ainda mais se pensarmos que o parque está inserido na área urbana, é dividido em quatro setores, com vários bairros no meio, é cortado por estradas… mesmo o carioca não entende muito bem o que é o parque e onde o parque está. É um dos grandes desafios as pessoas entenderem bem o que é o Parque Nacional da Tijuca e eu acredito que temos a vocação para sermos a porta de entrada do sistema todo. Nós estamos na principal cidade turística do Brasil, somos o parque mais visitado e abrigamos o maior atrativo turístico do país. Nós temos a missão de apresentar todo o sistema de unidades de conservação para sociedade. É o que tentamos fazer com a exposição permanente “Floresta protetora”, no Centro de Visitantes Paineiras, mostrando os outros parques que existem e a importância da biodiversidade que se preserva neles. Essa é uma tentativa de trazer esse turista que vem visitar somente o Corcovado, mostrar que ele está dentro de um parque nacional e fazê-lo valorizar isso. As paisagens mais fantásticas do Brasil estão protegidas dentro dos nossos parques nacionais.

Existe uma espécie de mito de que o Parque Nacional da Tijuca sustenta outros parques brasileiros com números menos expressivos de visitação e menores fontes de arrecadação.

Não é totalmente mito. Anualmente recebemos aproximadamente 3 milhões de visitantes e, além disso, a nossa arrecadação aumentou muito por conta dos contratos de concessão e desde que nós assumimos 100% o Trem do Corcovado, que antes era da SPU [Secretaria de Patrimônio da União]. A uns 5 anos atrás nossa arrecadação girava por volta dos 10, 12 milhões, e hoje ela está em quase 40 milhões. E essa realmente é a maior receita do ICMBio, representa cerca de 30% do faturamento deles, que inclui não apenas o faturamento com visitação, como também com licitação de madeira em Floresta Nacional, concessão de madeira, multas e etc.

O que acontece é que muitas vezes o Ministério do Planejamento contingencia outras fontes orçamentárias e esse dinheiro não se consolida como um extra pro ICMBio. Essa questão orçamentária é delicada e a área ambiental nunca foi muito favorecida. Não obrigatoriamente nosso faturamento maior resulta numa melhoria direta, mas não deixa de significar que o Parque Nacional da Tijuca ajuda a manter o sistema de parques como um todo.

Neste sábado (11/02) será a inauguração oficial da Trilha Transcarioca que será um atrativo a mais no parque, uma vez que mais de 50km dela estão dentro do PNT. Quais as suas expectativas?

Nós já temos uma tradição de trilhas no Parque Nacional da Tijuca relativamente grande: o circuito dos picos, as trilhas na Floresta da Tijuca e as caminhadas mais curtas para cachoeiras na Serra da Carioca são um exemplo. Com a Trilha Transcarioca agregamos a isso uma perspectiva que ainda não existia aqui no Rio, que é a permanência mais longa dentro das áreas de floresta. Ainda existem várias soluções que estamos buscando com relação ao pernoite, mas essa experiência de permanência no ambiente natural é um dos pontos fortes da trilha. Outra coisa interessante é que a Transcarioca estimula a visitação em outras áreas protegidas da cidade. A Trilha Transcarioca costura o Mosaico Carioca de áreas protegidas da cidade e isso tem um potencial incrível. A maioria das trilhas do Parque Estadual da Pedra Branca (RJ), por exemplo, já existia, mas não eram conhecidas, e agora a Transcarioca traz a Pedra Branca mais para perto.

A imponente Pedra da Gávea, um dos símbolos do Parque Nacional da Tijuca. Foto: Peterson de Almeida

A imponente Pedra da Gávea, um dos símbolos do Parque Nacional da Tijuca. Foto: Peterson de Almeida

Quais os desafios na gestão de um parque localizado no coração de uma metrópole?

Dá muito mais trabalho. Mesmo o básico para que o visitante possa conhecer a unidade já dá um trabalho do caramba. Aqui nós temos outras dificuldades, a começar pelos conflitos com a área urbana que outros parques têm, mas nenhum com a intensidade da Tijuca. Nós estamos dentro de uma metrópole com 100 comunidades no entorno imediato; com casas de milionários no meio da floresta, coladas à área do parque; com o maior atrativo turístico, então, além do ecoturismo, gerimos também turismo de massa; com uma importância econômica para cidade que atrai atenção da mídia, de empresário e da própria população do entorno. Ou seja, tudo aqui é gigantesco e o trabalho por trás é proporcional. Por outro lado, essa visibilidade também gera muito mais oportunidades. O que nós estamos conseguindo fazer aqui: o Centro de Visitantes, a geração de recursos, a melhoria nas trilhas, tudo isso tem relação com a visibilidade que o parque tem.

Um dos principais problemas de um parque urbano talvez seja a segurança e no Rio de Janeiro isso é ainda mais acentuado. Como o parque se articula nessa questão?

A segurança pública não é uma atribuição dos órgãos gestores de unidades de conservação. Constitucionalmente essa é uma atribuição das polícias estaduais, principalmente com o policiamento ostensivo da Polícia Militar. Claro que a gente não fica confortável dizendo que isso é problema de outra instituição, mas a gente também não se ilude. O Parque Nacional da Tijuca está inserido na realidade da metrópole e a violência da metrópole vai sempre transbordar para dentro do parque. É o parque, obviamente, que tem mais ocorrências deste tipo no Brasil, mas ao mesmo tempo, se compararmos com os bairros vizinhos é uma das áreas mais seguras da cidade. Porém, ser assaltado dentro de uma trilha é mais traumático do que ser assaltado em uma área urbana. No setor Pretos Forros/Covanca, nós temos um caso muito crítico. É uma área que foi incorporada ao parque há menos tempo [2004] e é uma região dominada pela milícia de um lado e pelo tráfico de outro. E às vezes eles estão em guerra. A gestão dessa área é bem complicada e a gente não recomenda que o visitante passe por ali. Embora conceitualmente a própria Trilha Transcarioca passe por ali, nós nem fizemos a implantação física da trilha com sinalização e manejo adequados. O que nós recomendamos é que a pessoa dê a volta e entre já no Vale dos Ciganos, no Setor Floresta do parque.

O ano de 2017 está apenas começando. Quais as metas e os projetos do parque?

A Trilha Transcarioca é um projeto antigo, mas que está sendo coroado agora em 2017. Além disso, vamos começar as obras na estação do Trem do Corcovado, no Cosme Velho, e nos preparar para chegada dos trens novos, prevista para 2018. Também planejamos abrir novas trilhas de mountain bike. As primeiras foram abertas há dois anos e nós as monitoramos por mais de um ano para verificarmos se elas eram sustentáveis, e agora devemos abrir mais uma ou duas, em parceria com a Federação de Ciclismo que adotará esses trechos.

Outro passo muito importante no longo prazo que estamos buscando concretizar é o ordenamento das torres de comunicação do Sumaré, que deve reduzir o número de torres. O Plano de Manejo do parque define critérios para quem presta serviços de utilidade pública, é permitida a permanência, mas as empresas deveriam pagar por essa ocupação. A ideia é de que esse recurso seja aplicado diretamente no parque, então poderá ser um passo importante para sustentabilidade do parque no longo prazo.

Outra frente de atuação é o fortalecimento do Amigos do Parque, que estimula as pessoas a oficializarem, por assim dizer, sua amizade com o parque e participar diretamente nele. Também estamos lançando o projeto Ciclista Amigo do Parque, que é um primeiro piloto para um público direcionado e a ideia é que quanto mais ciclistas se associarem, mais o parque irá fazer coisas voltadas para esse público.

Esse ano também pretendemos concluir toda sinalização do parque que será bilíngue, com a parte interpretativa e com os mapas de localização. Recentemente abrimos novas áreas de banho, a Cascata Gabriela e a Cachoeira da Baronesa, na Floresta da Tijuca, e estamos avaliando a possibilidade de abrir ainda novos pontos de banho. A ideia não é trazer mais gente, mas é distribuir melhor as pessoas que ficam muito concentradas na Cachoeira das Almas e no Horto. E também queremos consolidar o Centro de Visitantes Paineiras, com a construção de um estacionamento e de uma área de eventos.

O famoso cartão postal do Corcovado. Foto: Peterson de Almeida

O famoso cartão postal do Corcovado. Foto: Peterson de Almeida

Um projeto que talvez ainda esteja distante ainda, mas que já está em movimento é a criação da trilha de longo curso Caminho da Mata Atlântica. Como está sendo feita a mobilização desse projeto?

O Caminho da Mata Atlântica nasceu a partir da ideia da junção da Trilha Transcarioca com a travessia da Serra dos Órgãos, como um próximo passo e um crescimento de escala. A ideia do trajeto é ligar o Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul, até o Parque Estadual do Desengano, na região norte do estado do Rio de Janeiro. O percurso acompanha todo o eixo da Serra do Mar e mais um pouco e teria cerca de 3 mil quilômetros de extensão. Na verdade, assim como a Transcarioca conectou caminhos existentes, o Caminho da Mata Atlântica faz principalmente isso e por isso já está quase todo pronto. O traçado já está no papel e cerca de 70% do caminho já existe. Não é um sonho tão distante assim. E já existe uma mobilização grande no projeto, inspirada pelo modelo da Transcarioca. A WWF-Brasil também está envolvida, assim como o INEA [Instituto Estadual do Ambiente – RJ], a Fundação Florestal [SP], o Instituto Ambiental do Paraná, e o FATMA [Fundação de Meio Ambiente – SC]. É um sonho que estamos tentando tirar do papel: ter uma trilha de longa extensão na ordem de grandeza de uma Appalachian Trail, por exemplo, e outras grandes trilhas do mundo. Assim como a Transcarioca tem o papel de corredor ecológico na escala local da cidade, essas trilhas de longo curso estimulam a criação de corredores florestais, o ecoturismo, a geração de emprego e renda para comunidades locais, e permitem essa visão de fortalecimento da conservação em maior escala.

 

 

 

Comentários

comentários