Maurizélia de Brito, gestora do Atol das Rocas. Foto: Acervo pessoal


As imagens aéreas da Reserva Biológica Atol das Rocas (RN) com suas águas cristalinas em diferentes tons de azul entremeadas por curtos trechos de areia branca fazem suspirar mergulhadores e amantes da natureza. Toda a beleza vista de cima, ganha ainda mais cor e vida debaixo d’água. Um atol é uma ilha oceânica formada por um recife de coral em formato fechado, e Rocas é o único coral deste tipo em todo o Atlântico Sul. Protegido pela criação de uma reserva biológica em 1979, a categoria mais restritiva dentre todas as unidades de conservação, o Atol é um berçário para vida marinha e para aves migratórias que a maioria das pessoas terá a chance de conhecer apenas por foto, uma vez que os únicos visitantes permitidos são a equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão gestor, e os pesquisadores. Todo cuidado é pouco para garantir a conservação do ecossistema recifal, que é extremamente frágil – e precioso!

Uma das pessoas privilegiadas em conhecer esse rico patrimônio natural e a principal encarregada de defendê-lo é Maurizélia de Brito. Servidora da reserva há 27 anos e gestora da mesma há 23, Zélia, como prefere ser chamada, tem uma vida inteira de dedicação ao Atol. Como ela mesmo define, “minha formação é atolense, eu aprendi tudo no Atol das Rocas, com os pesquisadores, com leitura e com o campo”. De acordo com ela, a proteção integral é fundamental para garantir a conservação na reserva, cujo limite de ocupação é de apenas 5 pessoas por vez. Zélia explica a importância de ferramentas via satélite para fazer a fiscalização no território da reserva biológica, que possui cerca de 35 mil hectares, e que ajudaram a banir a pesca dos limites do Atol. “Quando a gente chegou lá, em 91, para implantar a reserva, o maior impacto era o da pesca. Havia muita pesca e pouquíssima vida. Hoje, você consegue ver a recuperação do ambiente e de todas as espécies que habitam o Atol”, conta a gestora.

Leia a entrevista completa que o WikiParques fez com a gestora:

WikiParques: O que é um atol? E qual a importância de preservar o Atol das Rocas?

Maurizélia de Brito: Atol é um tipo de recife em forma fechada, não necessariamente circular. Além dele, existe o recife em franja, que é o que ocorre na costa brasileira, e a Grande Barreira de Corais na Austrália, que é outro tipo de formação recifal.

Existem 425 atóis no mundo: 398 no Oceano Índico e Pacífico; 26 no Mar do Caribe; e apenas um no Atlântico Sul, que é o Atol das Rocas, localizado na costa do nordeste brasileiro, a 270 km de Natal, no Rio Grande do Norte. O Atol abriga milhares de espécies como o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-limão (Negaprion brevirostris), lagostas, aves marinhas, peixes recifais, tartarugas, baleias, golfinhos, crustáceos e moluscos em geral. Se eu andar 50 metros da nossa estação para dentro do mar, eu vou encontrar lagosta, raia, tubarão, polvo, caranguejo e mais de 100 espécies de peixes. É um ambiente bastante rico e responsável pela perpetuação de muitas espécies, inclusive aquelas ameaçadas de extinção que estão desaparecendo de outros lugares, mas permanecem frequentes no Atol.

No período reprodutivo do tubarão-lixa, que é agora, você encontra grupos de 40 fêmeas. Por isso que os bancos pesqueiros do Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará que recebem as correntes marítimas que passam pelo Atol são ricos em pescado. A corrente Sul Equatorial que passa na reserva, dispersa a riqueza do Atol: as larvas, peixes, lagostas e polvos. Isso mostra que a importância da conservação do Atol não se restringe apenas à proteção desse ecossistema, ela também é importante para sociedade. O pescador não pode pescar no Atol, mas o Atol vai fornecer pescado para as áreas em que ele pode pescar.

Imagem aérea do Atol das Rocas. Foto: Arquivo/ICMBio


Qual a importância do Atol ser uma reserva biológica, que é a categoria mais restritiva dentre as unidades de conservação? Por que uma reserva biológica e não um parque nacional?

O Atol das Rocas é o único atol do Atlântico sul, dos 425 atóis existentes no mundo, e a decisão de criar uma reserva biológica, uma unidade de conservação de proteção integral e mais restritiva, foi feita exatamente para garantir a proteção do local, que é único. Rocas é um berçário de vida marinha, onde a maior parte da população é de fêmeas. Os bichos vão para o Atol para se reproduzir e se dispersam para outros ambientes pelas correntes marítimas e pelo ar, no caso das aves. Por isso a importância da proteção integral e de livrar o ambiente de qualquer impacto humano negativo, para garantir que os animais sejam completamente livres para perpetuar.

E não tem condições de ter visitação porque é um ambiente altamente frágil. Tanto é que a capacidade de carga da unidade é de 5 pessoas. O Atol não possui capacidade de receber visitantes. Lá não tem manancial de água potável, não tem infraestrutura, e a maior parte do ano ocorrem ondas gigantes devido ao fenômeno do swell, sem falar nas tempestades marítimas, que por si só já causam um impacto natural das ondas sobre os ninhais e as áreas de recife. E nós temos que minimizar ao máximo os impactos que os humanos podem causar. Tanto é que a gente não entra em todos os lugares. Por exemplo, quem trabalha no mar, não circula nas ilhas; quem trabalha nas ilhas, não circula na parte das piscinas. Lá é um ambiente de pesquisa e ele precisa estar conservado e protegido para se ter o que conhecer. Não há condições nenhuma de abrir para o turismo. O ideal seria que nem a gente mesmo precisasse estar lá, era para ser um lugar livre da presença humana, mas infelizmente sem nossa presença e nossa fiscalização a história do Atol provavelmente seria outra.

Você está no Atol há mais de 20 anos e acompanhou a história de implementação da reserva biológica de perto. Como tem sido a recuperação do ambiente desde então?

A reserva foi criada em 5 de junho de 1979, mas ela só foi implantada 12 anos depois. Quando a gente chegou lá, o maior impacto era o da pesca. E entre a criação da reserva em 79 e a implementação em 91, o Atol das Rocas era muito visitado. Por velejadores, por pessoas com lanchas, as pessoas iam para lá para pescar, para pegar material de naufrágio. Com isso muitos sítios arqueológicos foram desconfigurados. Pescadores levaram canhão, âncora… 

Uma raia circula livremente e em segurança nas águas da reserva. Foto: Maurizélia de Brito

E quando nós chegamos no Atol para implantar de fato a unidade de conservação havia muita pesca, muitos barcos de pesca, e pouquíssima vida. Era rede de pesca, arpão, compressor, linha, e hoje é possível ver a recuperação do ambiente. Se você vai pesquisar à noite, por exemplo, você anda e encontra centenas de lagostas. Você reconhece peixes com marcas naturais que era um jovem e está 20 anos mais velho. Você vê cardumes nos quais você não consegue contar a quantidade de peixes. Na época da implantação, o máximo de caranguejo que contabilizados quando fizemos censo foi 174. Se eu sentar na praia hoje, ao meu redor eu vou contar 800. Nós estamos vendo que o Atol está conseguindo se recuperar de um período de depredação, degradação e exploração ilegal muito forte.

Quais são os desafios de fazer a fiscalização de uma área de proteção marinha e como ferramentas de tecnologia via satélite ajudam nesse trabalho?

A área total da reserva é de pouco mais de 35 mil hectares, dos quais o atol em si ocupa 550 hectares (5,5 km²). Ou seja além do ambiente recifal, a reserva se estende às águas do entorno até 1.000 metros de profundidade. E antes a fiscalização era presencial, então os barcos ficavam quase dentro do atol, agora além de não termos mais essas embarcações dentro da área da unidade, nós possuímos ferramentas via satélite que nos permitem autuar uma embarcação sem ter o contato direto com o pescador. Nós usamos todas as ferramentas disponíveis. Tanto o PREPS, desenvolvido pelo governo brasileiro, que é o Programa Nacional de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite, quanto todos os outros fornecidos pela internet. Hoje a gente fiscaliza não apenas a área da unidade, mas também as águas brasileiras, para que possamos informar a Marinha e a Aeronáutica sobre a presença de embarcações estrangeiras em nossas águas. Por quê? Porque isso também afeta indiretamente o Atol. Os bichos estão indo para o Atol para se reproduzir, se eles forem capturados fora da unidade eles não chegam lá. Por isso a nossa preocupação não é só conservar o Atol, mas pensar em formas de também conservar o ambiente do entorno.

Qual o tamanho da equipe da reserva e qual a logística de ocupação da ilha uma vez que a capacidade de carga do Atol é tão pequena?

No total nós temos 3 analistas ambientais e eu, que sou técnico administrativo e gestora. Além disso, temos um funcionário contratado via GEF-Mar e uma terceirizada que presta serviços de limpeza no escritório. A capacidade de carga da Rebio (Reserva Biológica) Atol das Rocas é de até 5 pessoas. Então nós trabalhamos com esse limite, normalmente com 1 servidor da unidade e mais 4 pesquisadores. Fazemos um sistema de rodízio em que cada equipe permanece no mínimo 30 dias no Atol. E todo nosso consumo é levado do continente: água, comida, combustível, remédio. A gente não pesca, não caça. E a água que levamos é só para beber e cozinhar.

Maurizélia junto com pesquisadores no Atol. Foto: Acervo pessoal


A pesquisa científica é a única atividade externa permitida no Atol, como é essa relação com os pesquisadores?

No total já foram concluídas 120 pesquisas no Atol. O pesquisador vai com a gente, fica com a gente e volta com a gente. A gente monitora a pesquisa dele e participa. E todos esses estudos voltam para nós em forma de monografia, dissertação e tese, porque é a pesquisa que vai garantir a qualidade de gestão da reserva. Nós precisamos ler, saber o resultado e inclusive qual é a proposta do pesquisador para unidade. Atualmente nós temos 37 licenças de pesquisa, o que garante a ocupação da estação até 2020. E nós nunca deixamos cair o número de pesquisas. Quando a tese de um está em fase final, nós já convidamos outro pesquisador. E às vezes nós aconselhamos o pesquisador a esperar o ano seguinte para dar entrada no processo, porque assim nós garantimos a ocupação da reserva por mais dois anos. É uma estratégia, já que temos muito pesquisadores interessados, para não ficarmos com um bando de licença sem conseguirmos manter pessoas lá. Nós temos no máximo 13 viagens por ano. Você tem que ter a consciência de não licenciar mais pessoas do que o Atol pode receber. E quando é algo emergencial, eu tiro os pesquisadores mais antigos, que já têm dados suficientes e boto pesquisadores novos para ter dados novos.

Quais os principais problemas e ameaças hoje na reserva?

Hoje no Atol a pesca não é um problema, mas nós vivemos em estado de alerta. A nossa maior preocupação hoje são mesmo os eventos naturais que podem atingir o ambiente recifal, como El Niño, La Niña, que aquecem e esfriam as águas, e o branqueamento dos corais. Por isso que a gente monitora constantemente o status de saúde do ambiente recifal. Se houver o branqueamento dos corais, não é apenas o recife que sofre, tem toda uma comunidade marinha no entorno que é afetada. Outro problema é a questão da poluição, que as pessoas chamam de lixo marinho, mas eu gosto de chamar de lixo humano marinho, porque o mar não produz lixo. Quem produz lixo é o humano, e os resíduos chegam nas ilhas, nas piscinas, nos recifes, e nós diariamente temos a tarefa de recolher tudo. É um trabalho diário porque se não fizermos isso, a ave pode pegar aquele lixo, engolir e morrer.

Outra preocupação é o aumento do nível do mar, que inclusive atingiu nossa estação e nos obrigou a desmontar a estrutura que foi construída há 25 anos e que ficava no meio da ilha. Há 15 dias nós tivemos que tirar ela de lá porque ela estava cheia de água. Além disso, há também as tempestades oceânicas que impactam, mas ironicamente também colaboram com a reserva, porque elas tiram tudo que não presta ou que não pertence ao ambiente. Por exemplo, chegou um gafanhoto e começou a reproduzir, e nós não conseguíamos capturá-los porque eles saíam pulando e voando loucamente. E essas últimas tempestades lavaram todas as ilhas e levaram todos os gafanhotos embora.

A estação que servia de base para os servidores e pesquisadores no Atol. Foto: Maurizélia de Brito


Um outro exemplo recente ocorreu com as aplysias (gênero da família Aplysiidae), que são as lebres-do-mar. Em 2010, todas morreram e por anos não tivemos registro de nenhuma aplysia. Este ano, elas voltaram. Como? Não sabemos. Nós contamos mais de 30 e estavam todas em reprodução. Essa é a prova de que quando é um evento natural, o próprio ambiente se recupera. Quando é uma interferência humana, aí é bem mais difícil.

Quais você acredita que sejam os principais desafios para implementação de unidades de conservação marinhas no Brasil ?

Independente de ser unidade de conservação, você precisa de gestão. E as áreas de proteção sejam marinhas, terrestres ou costeiras só serão verdadeiramente protegidas se houver gestão. Gestão significa você buscar meios de proteger. Fiscalização é de fundamental importância. Se você não fiscaliza, você não sabe o que está acontecendo de impacto dentro das unidades. A pesquisa também é de fundamental importância, porque você só protege aquilo que você conhece. E parcerias. Rocas sempre teve parcerias com pesquisadores, com a Marinha, com a Aeronáutica, mas isso se chama gestão. O gestor precisa ir pro campo, ele precisa conhecer a unidade que ele está comandando, se não ele não sabe o que fazer. Eu conheço o Atol muito bem e eu vi quem que eu precisava ter de apoiador para poder protegê-lo. Portanto para proteger é preciso ter gestão e a gestão significa estar presente, fiscalizar, estar junto da academia e comunidade científica, e saber ter parceiros que venham para somar no desafio que é conservar o ambiente, seja marinho, costeiro ou terrestre.

Aves marinhas também fazem parada no atol para reproduzir. Foto: Maurizélia de Brito

 

 

 

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