Virgínia Camargos é gestora da RPPN Estação Veracel há 4 anos. Foto: Duda Menegassi


Nos últimos anos, a Reserva Particular do Patrimônio Natural Estação Veracel (BA), localizada na Costa do Descobrimento, no sul da Bahia, tem celebrado a presença de moradores ilustres. Desde uma onça-pintada e duas famílias de harpias, animais emblemáticos para conservação; aos pequenos e coloridos passarinhos como o crejoá e diversas espécies de beija-flores que são o deleite dos observadores de aves. Por conta destes últimos, que integram uma lista de mais de 350 espécies, a reserva particular se tornou um destino cobiçado para o turismo de observação de aves.

Gestora da Estação Veracel desde julho de 2014, a bióloga Virgínia Camargos comemora o sucesso entre os observadores que, de acordo com ela, contribuem para o próprio manejo da área porque geram conhecimento sobre as espécies que ocorrem na reserva. “Desde setembro do ano passado, a reserva já recebeu mais de 700 observadores e nós sempre pedimos para que o observador compartilhe conosco a lista das espécies avistadas, porque isso é uma ciência cidadã e auxilia muito a gente nos trabalhos rotineiros da reserva”, conta a gestora. Na contramão do bom visitante, está o maior problema da unidade de conservação: o caçador. “O nosso maior desafio é coibir a caça. A minha equipe roda todos os dias, e não tem um único dia no qual eles não encontram indícios ou vestígios de caça”, lamenta.

Leia a entrevista completa que o WikiParques fez com a gestora:

WikiParques: De que forma tem funcionado o turismo de observação de aves dentro da Estação Veracel?

Virgínia Camargos: Nós revisamos nosso Plano de Manejo para contemplar o turismo de observação de aves e estamos nos estruturando cada vez mais para receber este turista. Nós temos duas situações distintas. O Vem Passarinhar, que normalmente é com aquela pessoa que não conhece nada de observação de aves e que precisa estar acompanhada de alguém que ajude a despertar seu interesse, e para quem nós damos o nosso guia de identificação das espécies e emprestamos binóculos. E existe o outro observador, que é aquele que vem e já vem acompanhado de um guia externo que mostre para ele onde o bicho fica. Esse observador liga para nós, fala que quer vir observar aves aqui, nós autorizamos e pedimos para que ele passe antes na guarita para pegar orientações de segurança e pegar as chaves de cadeados de algumas das porteiras na estrada que estão mapeadas para observação de aves. Todas as estradas aqui têm conexão com essa estrada principal, ou seja, a observação de aves é auto-guiada pela própria estrutura da Estação, mas o turista precisa de alguém que conheça os ambientes e os hábitos dos animais. Que vá dizer, por exemplo, que na muçununga [vegetação típica da Mata Atlântica] é fácil de ver o anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea), a tiriba-grande (Pyrrhura cruentata), pode ver até o crejoá (Cotinga maculata). Que são alguns dos animais que os observadores buscam e que podem ser vistos facilmente aqui. Desde setembro do ano passado, a reserva já recebeu mais de 700 observadores de diferentes lugares do mundo. E nós sempre pedimos para que o observador compartilhe conosco a lista das espécies avistadas, porque isso é uma ciência cidadã e auxilia muito a gente nos trabalhos rotineiros da reserva.

Nosso próximo passo agora, além da divulgação, é montar uma torre de observação em uma área de muçununga, que é onde há alta ocorrência de espécies de aves. Porque assim o visitante vai poder chegar e ficar mais tranquilo observando as aves. Nós colocamos isso no orçamento de 2019, então nós já pretendemos fazê-la no próximo ano. Outra coisa que está nos nossos planos é a desafetação da estrada que corta a reserva e passar a controlar o fluxo de veículos que transitam nela porque isso dará mais segurança para o observador de aves. Se nós levarmos em consideração que ele normalmente vem com uma câmera fotográfica e um binóculo, esses são equipamentos caros, e atualmente é uma estrada municipal sobre a qual eu não tenho controle nenhum.

Como tem sido essa estratégia de aproximação junto aos atores locais para trazê-los para dentro dessa nova atividade?

Nós já fizemos dois treinamentos, um de condutores e o outro de iniciação na observação de aves. A partir destas capacitações a gente está tentando identificar pessoas que possuem esta paixão. Até o momento, identificamos apenas 2 ou 3 potenciais guias, mas essa é uma situação que a gente acredita que só vai se consolidar quando nós tivermos um pontapé inicial em que os moradores consigam enxergar essa atividade como uma real possibilidade de geração de renda. Além disso, com esse trabalho nas escolas e com as crianças, nós esperamos identificar e despertar essa paixão em outras pessoas. Quando você começa a conversar com a criança e ela conta “ah, meu vizinho tem passarinho preso”. Não é que ele é o inimigo não, se ele tem preso é porque ele gosta. É só você mudar a chavinha dele e trazer essa pessoa para mais perto de você, através da possibilidade de geração de renda. Porque não adianta eu falar de conservação ambiental para quem está passando fome. Não adianta. Você tem que dar uma perspectiva para ele.

E a gente não acredita que nós temos que investir apenas nas crianças porque elas são nosso futuro e o adulto não adianta. Nós não podemos pensar mais assim. Nós precisamos trabalhar com todo mundo. Se nós não mudarmos comportamento, nós não vamos ter conservação ambiental. Independentemente se é uma criança ou um adulto. A gente tem que mudar o comportamento.

Observadores de aves são visitantes frequentes na RPPN. Foto: Duda Menegassi

E como funciona a visitação para o turista comum?

É necessário o agendamento prévio e as visitas são guiadas porque o visitante pode se perder nas trilhas. Este turista entra em contato conosco por telefone ou por e-mail e agenda a visita. Não deixamos de atender ninguém, mas precisa ser com guia. Já aconteceu de chegarem aqui sem agendamento e nós deixamos eles pelo menos circularem na área do centro de visitantes para conhecer. Não é o ideal, por isso a orientação é agendar previamente.


Recentemente foram feitos registros de onça-pintada e de harpia, dois predadores de topo de cadeia. Como é feito o monitoramento da fauna na RPPN?

A Veracel possui a certificação FSC [Forestry Stewardship Council]. E um dos princípios é garantir que a sua operação não esteja causando nenhum tipo de impacto à biodiversidade. E como é que a gente garante isso? Fazendo monitoramento de fauna e flora. A gente faz o monitoramento desde 2008. É com esse trabalho que a gente gera dados que podem mudar inclusive nossa forma de plantar eucalipto. Especificamente os mamíferos nós começamos a monitorar em 2012, por conta da pressão da caça. Nós fazemos esse monitoramento por vestígios e indícios. E em maio de 2017, uma das armadilhas fotográficas conseguiu capturar um registro de uma onça-pintada (Panthera onca). Esse monitoramento é financiado por nós e é feito 4 vezes ao ano. Duas na Estação e duas em outras áreas. Como aqui a gente sabe que aqui na reserva há uma ocorrência maior de animais, nós colocamos as armadilhas fotográficas duas vezes, que é a ferramenta através da qual monitoramos os mamíferos.

Como foi a descoberta dos ninhos de harpia?

Nós já sabíamos que tínhamos um casal de harpia (Harpia harpyja) na reserva e nós tínhamos identificado um ninho, mas ainda sem registro de filhotes. Porém um dia houve uma chuva com muito vento e a árvore caiu, danificando o ninho. Na época, a pesquisadora explicou que é comum a harpia fazer dois ninhos para depois decidir qual que ela irá colocar em uso. E enquanto nós fazíamos o monitoramento de outra espécie, a onça-pintada, nós flagramos um filhote de harpia no solo. A partir desse registro nossos monitores ambientais conseguiram encontrar o ninho, que estava ativo. E aí instalamos a câmera para começar a monitorar. Algum tempo depois, um dos membros da nossa equipe escutou o piado de um filhote de harpia, que é bem característico, durante uma ronda de fiscalização e foi procurar, e achou o segundo ninho, também com filhote. Nós já instalamos uma câmera lá também para monitorar o bicho. O próximo passo agora é fazer o estudo genético entre os dois filhotes através das penas para ver se eles são irmãos ou primos. Com isso podemos confirmar se a harpia é mesmo monogâmica, como os estudos indicam, ou mostrar que esse comportamento foi alterado devido à, por exemplo, fragmentação do ambiente. De toda forma, sabemos que são no mínimo 5 harpias: dois filhotes, duas fêmeas e no mínimo um macho, talvez dois, se forem de fato dois casais.

Os locais onde os ninhos foram encontrado não estão na zona de visitação da reserva e temos o cuidado de evitar um impacto na vida dos animais que poderia estressá-los, por isso eu não posso permitir que todo o observador de aves que queira ver a harpia vá lá. A finalidade de uma unidade de conservação como o próprio nome diz é a conservação.

Filhote de harpia em um dos ninhos da reserva. Foto: Duda Menegassi

O que a presença destes predadores de topo de cadeia alimentar significa para reserva?

Ano passado, quando nós encontramos a onça, nós tivemos dois pensamentos, um positivo que é, “opa, aqui comporta a onça” e outro que é “aqui é pequeno para uma onça”. Mas se essa reserva está sendo suficiente para ela, pelo menos precisamos nos esforçar para mantê-la bem aqui. E aí vem a preocupação com o entorno, deste animal ser abatido pelo medo que as pessoas têm da onça. E nós precisamos fazer um trabalho de educação ambiental bem forte. Quando a gente descobriu a harpia, que nós achávamos que era um casal, e de repente nos deparamos com a possibilidade de ter 6 indivíduos ou 5 no mínimo, é emocionante. Vem uma sensação muito boa de que nós estamos fazendo o serviço bem-feito. Ou seja, eu estou conseguindo fazer que este ambiente cumpra a sua função que é manter animais de topo de cadeia. É o que você sempre espera de uma floresta.

Qual o principal desafio da reserva?

O nosso maior desafio é coibir a caça. Nós não temos problema com extração de madeira, nem nada, nosso maior problema é a caça. A minha equipe roda todos os dias e não tem um único dia no qual eles não encontram indícios ou vestígios de caça. Indício é o rastro de que alguém passou por ali e o vestígio é quando deixam algum tipo de estrutura, como um girau ou um trabuco armado. Eles caçam tudo. Tatu, paca, no ano passado nós tivemos até uma anta abatida. É uma atividade extremamente errada e predatória. O cara caça porque tem alguém na ponta financiando. Tem alguém que aprecia carne de paca e está financiando essa pessoa dentro da mata caçando. E falta na nossa região um serviço de inteligência para tentar identificar quem é essa ponta que está comprando. Porque quem está pagando carne de caça a 300 ou 400 reais, não é um coitadinho que quer matar sua fome. É gente que tem grana e faz isso por prazer. E o consumo de carne de caça pode inclusive causar doenças. A carne de tatu, por exemplo, pode transmitir hanseníase.

Outra dificuldade é a falta de poder de polícia para combater este crime ambiental. Outro dia a minha equipe me ligou às 15 horas dizendo: “Virgínia, tem caçador na área, escutamos conversa e vimos cachorro”. A primeira coisa que eu fiz foi pedir para eles saírem dali para não correrem o risco de tomarem um tiro e acionei a polícia. Mas a polícia não tinha contingente para ir. E eu vou fazer o que? Aí eu fico com aquela sensação de impotência. Pensando que a onça pode estar correndo risco, a harpia pode estar correndo risco.

O problema é que a Polícia Ambiental pode até ter boa vontade, mas não tem contingência porque a polícia de dentro da cidade não tem dado conta dos crimes que tem acontecido e eles muitas vezes pedem ajuda da Polícia Ambiental. E aí eles acabam saindo da área que eles deveriam atuar.

E os analistas do ICMBio que ficam no Parque Nacional do Pau Brasil não podem apoiar?

Os analistas poderiam nos ajudar, porque eles podem dar voz de prisão, mas eles têm uma área que é três vezes maior do que a nossa. E eles também têm problemas. Como é que eu faço o cara sair da área dele para vir fiscalizar na minha área? Não dá, é injusto. Quem tinha que me apoiar era a Polícia Ambiental.

Monitora ambiental da reserva durante visita guiada. Foto: Duda Menegassi

Como a Estação Veracel e as outras unidades de conservação da região têm se articulado para tentar combater a caça, já que este é um problema comum a todos?

Em maio deste ano, o Ministério Público organizou um workshop sobre a caça em Porto Seguro que envolveu mais de 100 pessoas, incluindo representantes da Polícia Ambiental, do IBAMA, do ICMBio, a Secretaria de Meio Ambiente de Porto Seguro, e nós apoiamos também junto com o pessoal da RPPN Rio do Brasil, que fica aqui no entorno e também sofre muito com essa questão dos caçadores. Quando entra em cena um órgão extremamente repressor, como é o Ministério Público, as coisas começam a mudar um pouco de figura. O promotor de Porto Seguro junto com o coordenador do NUMA [Núcleo Mata Atlântica do Estado da Bahia] assumiram o combate à caça como uma causa nobre no Ministério Público. Então a gente acredita que agora as coisas vão começar a caminhar um pouco mais.

Durante o workshop, uma das questões levantadas foi justamente a estrada que cruza a área da reserva. Nós acreditamos que com a desafetação da estrada, nós iremos conseguir dar uma diminuída na caça. Porque o cara que caça quer acesso. E na estrada ele entra com o carro dele e vai aonde ele quer. Se ele tiver que deixar o carro aqui na rodovia e ir a pé, ele não vai fazer, porque como é que ele carrega depois? Ele vai ser visto. Nós já temos dados de pesquisas que apontam a relação direta da caça com as estradas que cortam unidades de conservação exatamente por essa questão do acesso fácil. Portanto esta é outra meta nossa.

Uma pauta que tem sido prioritária para vocês é a criação do Corredor Veracel – Pau Brasil. Como foi a elaboração deste projeto e qual a expectativa para sua implementação?

Mapa com o corredor proposto para conectar as áreas protegidas.

Na época de elaboração do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA) de Porto Seguro foram identificadas as áreas prioritárias para conservação. E por já serem unidades de conservação, tanto o Parque Nacional do Pau Brasil (BA) quanto a Estação Veracel foram indicadas como áreas prioritárias. E nas ameaças listadas pelo levantamento destacava-se o isolamento dessas áreas e o fato de existirem muitos fragmentos isolados de vegetação. E isso nos chamou atenção para essa questão de conectividade. Então nós chamamos o Fábio Faraco, gestor do parque nacional, e propusemos a criação de um corredor ecológico que fizesse a conexão entre as duas áreas protegidas. Em linha reta a gente imaginava que o corredor teria cerca de 7 quilômetros, então que seria fácil implementá-lo. Mas existe um assentamento chamado Vale Verde, reconhecido pelo INCRA, que seria um impasse para o corredor, porque as áreas de compensação ambiental deles são em outro local. E aí nessa modelagem feita por softwares foram colocadas estas questões e chegou-se à proposta atual, de um corredor um pouco mais extenso, mas que leva em consideração as plantações de cabruca, que é o cacau sombreado por árvores nativas, para viabilizar essa conexão. São 538 hectares. Destes apenas cerca de 45 precisam de restauração florestal efetiva. A maior parte do corredor está em área de cacau cabruca, na margem do rio Buranhém, que é uma Área de Preservação Permanente (APP).

O corredor proposto não passa por propriedades da Veracel, e o maior desafio é fazer com que os proprietários rurais abracem este projeto. Por isso estamos buscando apoio de políticas públicas e estamos na luta para que o Ministério do Meio Ambiente faça uma portaria estabelecendo esta uma área prioritária para corredor ecológico e oriente os proprietários durante o mapeamento das terras para o Cadastro Ambiental Rural, que eles coloquem suas áreas de APP e Reserva Legal dentro deste corredor.

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