Participantes do seminário plantam árvores no Parque Nacional do Iguaçu, vizinho à Argentina. Foto: © WWF-Brasil/ Nathália Helena

Participantes do seminário plantam árvores no Parque Nacional do Iguaçu, vizinho à Argentina. Foto: © WWF-Brasil/ Nathália Helena

O Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), e o Parque Nacional do Iguazu, na Província de Missiones, na Argentina, têm muito mais em comum do que o nome do rio que une essas unidades de conservação.

A região que engloba os dois parques é um dos últimos remanescentes da Mata Atlântica, uma exuberante floresta que pontuava toda costa brasileira, desde o Nordeste, avançando até a Argentina e Paraguai. Estima-se que atualmente restem pouco mais de dez por cento desse bioma, um dos mais ameaçados do mundo.

E um dos raros pontos em que a Mata Atlântica está bem preservada é justamente na intersecção dos dois parques, uma área conhecida como ecorregião do Alto Paraná e que integra ainda o Corredor Trinacional de Biodiversidade, uma extensa área de cerca de um milhão de hectares.

Graças à integridade da floresta nesta região, centenas de espécies conseguem sobreviver ao acelerado processo de extinção causado pela fragmentação dos habitats naturais.

Para os parques conectados pelo Iguaçu, talvez a espécie mais emblemática seja a onça-pintada (Panthera onca). Desde 1990, pesquisadores brasileiros e argentinos têm se esforçado para manter vivo naquelas matas um dos maiores felinos das Américas.

Mas as onças desconhecem fronteiras. Apenas seguem seu fluxo natural. Por isso, para proteger o território e garantir a perpetuação da espécie, é preciso que ambos os lados trabalhem juntos. É esta parceria na conservação da biodiversidade o tema de um seminário que reúne esta semana em Foz do Iguaçu especialistas, gestores de áreas protegidas e ONGs de ambas nacionalidades.

A realização é do WWF-Brasil – por meio do Programa de Conservação da Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos no Corredor Binacional do Parque Nacional do Iguaçu e Parque Nacional do Iguazu – em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Fundación Vida Silvestre da Argentina e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O objetivo é fazer com que os laços da ciência e da cooperação que existem na prática há anos ganhem escala junto aos governos e outros parceiros para garantir o sucesso na conservação do ambiente comum.

“Estamos reafirmando nossa cooperação técnica de mais de uma década com os colegas argentinos e queremos também levar recomendações às instâncias superiores dos governos do Brasil e da Argentina para que se consolide no campo político e diplomático uma integração que já ocorre na prática”, disse Cláudio Maretti, presidente do ICMbio.

Emiliano Ezcurra, vice-presidente da Administração de Parques Nacionais da Argentina, pontuou que “as fronteiras são muito mais mentais do que físicas, quando se trata da conservação das espécies”. Ele dá um exemplo que parece distante, mas ilustra bem o caso.

“A indústria automobilística não tem esse problema de fronteira. Na hora de produzir carros, os países se acertam rapidamente, e dividem o que cada um irá fazer, de modo que todos ganhem. Por que não conseguimos essa integração na hora de cuidar do meio ambiente?”

Para Ezcurra, a conservação precisa ser vista como geradora de economia. “Nosso trabalho faz entrar euros, dólares, reais, pesos nas economias dos países”. Para ele, esta talvez seja a chave que irá destravar o entendimento dos governos de que é preciso trabalhar juntos.

Exemplo africano

A coordenadora do Programa de Mata Atlântica do WWF-Brasil, Anna Carolina Lobo, lembrou que a experiência com a gestão de áreas protegidas entre países vizinhos vem de longa data. Começou em 1932, no Parque Waterton-Glacier, entre o Canadá e os Estados Unidos.

Mais recentemente, vem da África um dos exemplos que mostram que o trabalho de conservação em áreas protegidas contíguas pode ser um jogo de ganha-ganha para todos os lados, mas que é preciso compromisso político por parte dos governos.

O Parque Nacional Limpopo, em Moçambique, tem como vizinhos os parques nacionais Kruger, no Zimbabwe, e Gonarezhou, na África do Sul. Os presidentes e autoridades ambientais dos três países sentaram-se à mesa e traçaram um planto de trabalho comum, no âmbito da iniciativa Peace Parks Foundation.

O governo do Zimbabwe, por exemplo, ajudou a repovoar o Limpopo com 4.700 animais selvagens, como girafas, elefantes e rinocerontes. Isso atrai para Moçambique turistas em busca safaris fotográficos, que ajudam a injetar dinheiro na economia do país. Pesquisas, concessões de turismo, experiências e boas práticas também entram na partilha.

Animados com os resultados, os governos das três nações africanas já estudam formas de facilitar que os turistas transitem livremente nas zonas comuns dos parques nacionais. Isso pode fazer da região um destino único no turismo ecológico no continente africano.

Exemplos assim se espalham pela América Central, Europa e Estados Unidos. Todos eles foram lembrados no primeiro dia de debates sobre o tema. A conclusão é que os benefícios para os países que se unem na defesa de áreas protegidas comuns também desconhecem fronteiras.

 

*Artigo original da WWF-Brasil. Republicado mediante licença Creative Commons BY-SA 3.0

 

 

 

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