Além das Cataratas, o percurso de 21 km tem como atrativo constante a Mata Atlântica, que ladeia a pista. Foto: Oscar Neto


Correr nunca é fácil. Muito menos quando a distância em questão é de 21 km, uma meia-maratona. Correr, entretanto, pode ser muito mais agradável quando o local da corrida abriga uma paisagem tão bela que é considerada como um Patrimônio Natural da Humanidade. Essa característica, por si só, já  torna especial a Meia Maratona das Cataratas, que acontece anualmente no Parque Nacional do Iguaçu (PR). No último domingo (02/06), a 12ª edição da prova reuniu 4.500 corredores e marcou o início da Semana do Meio Ambiente, além das comemorações dos 80 anos da área protegida.

Com o parque só para si, já que a visitação normal só seria reaberta após a corrida, os atletas se dividiram entre a tradicional prova de 21 km e o percurso menor de 8 km. Ambos percursos são realizados integralmente dentro da área protegida, diante das imponentes quedas d’água do rio Iguaçu e da exuberante Mata Atlântica. Um dos objetivos do evento é proporcionar aos participantes uma experiência única e especial de conexão com o parque e – obviamente – com seu cartão-postal.

No ônibus que nos leva do Centro de Visitantes para o setor Porto Canoas, de onde será dada a largada, escuto dois corredores conversando no banco de trás. “O parque é nosso, né? Temos que aproveitar. A gente mora perto e acaba se acostumando e nunca vem. Pessoas do mundo inteiro vem ver isso aqui, temos que aproveitar também”, comentaram Christian e Elias. Os dois vieram pela 3ª vez de Cascavel (a cerca de 150 km de Foz) para participar da Meia das Cataratas. “Não tem corrida de rua mais linda que essa”, respondem quando pergunto o motivo de virem tantas vezes seguidas.

Cerca de 4.500 pessoas se inscreveram para a prova. Foto: Oscar Neto

Os participantes misturavam sotaques e idiomas. Uma fronteira de três pátrias, Foz do Iguaçu recebeu corredores de todo Brasil, dos vizinhos Paraguai e Argentina, além de atletas de outros países. De acordo com o coordenador de comunicação e marketing da concessionária Cataratas do Iguaçu S/A, Wemerson Augusto, o retorno dos corredores da prova é sempre positivo. “Quem corre a Meia Maratona das Cataratas sempre quer voltar. E recomenda. Nós temos hoje grandes promotores no mundo inteiro. Pessoas que vêm para esse lugar e conseguem entender melhor a importância desse patrimônio. É uma prova 100% de conexão com a natureza”, pontua Wemerson.

De acordo com ele, isso aumenta também o grau de pertencimento das pessoas com relação ao parque. “Isso contribui para tornar o parque ainda mais admirado e colocá-lo ainda mais em evidência. E isso contribui para que ele seja um patrimônio, continue bem cuidado para esta e para as próximas gerações. Os atletas que participam da Meia-Maratona das Cataratas são viajantes ou moradores da região que têm um orgulho grande de morar aqui ou de estar aqui a passeio”, acrescenta o coordenador.

Vazão das Cataratas durante a corrida estava quase 4 vezes maior que o normal. Foto: Marcos Labanca


As Cataratas são naturalmente grandiosas, com uma vazão média de 1,5 milhão de litros de água por segundo. No domingo, às 08h00 da manhã, pouco antes de ser dada a largada para meia-maratona, a vazão estava em 5,5 milhões de litros por segundo [Fonte: Monitoramento Hidrológico/COPEL]. A força quase 4 vezes maior das águas do rio Iguaçu parecia estar ali propositalmente para inspirar os corredores e – na reta final – impulsioná-los contra o cansaço rumo à conclusão dos 21 km.

Exatamente próximo à marca do último quilômetro de prova, eis que surgem as Cataratas. Antes mesmo de vê-la, fui banhada por suas águas. A força da água era tanta que criou uma chuva particular carregada pelo vento em direção à estrada. Com o rio em voo dispersado em gotas sobre os corredores, o Iguaçu parecia abençoar a chegada dos valentes atletas.

Depois da prova, era quase obrigatório abusar um pouco mais das pernas e descer até a passarela que leva ao visual mais famoso do parque. Afinal, as Cataratas não são um atrativo para se conhecer correndo. É preciso tempo para contemplar e tentar com um mínimo de eficiência – e ainda assim apenas tentar – entender com as vistas a magnitude dessa paisagem.

Muitos participantes aproveitaram a prova para visitar pela 1ª vez o parque. Alguns vindos de longe, outros de municípios do próprio Paraná, como Vanderlei e Rodrigo, de Maringá (a cerca de 420 km de Foz) que mal descansaram as pernas depois da meia-maratona e já estavam animados com o passeio que iriam fazer na área protegida.

Após a prova, participantes aproveitam para ver de perto as Cataratas. Foto: Duda Menegassi


Ações pela natureza

Não bastaria, obviamente, organizar uma corrida em meio a natureza, em uma unidade de conservação, sem a preocupação em diminuir os impactos no ambiente e compensá-los. Uma das principais ações realizadas será o plantio de mudas de árvores nativas da Mata Atlântica para cada atleta inscrito, seja na prova de 8 ou 21 km. As mudas serão doadas para o Horto Municipal de Foz do Iguaçu e serão plantadas nos corredores ecológicos do parque e da cidade, para compensar a emissão de carbono durante a corrida. Cada atleta conseguirá acompanhar onde foi plantada sua muda através do seu número de inscrição.

Foi produzida uma muda nativa para cada inscrito na prova. Foto: Wesner Ferreira

Outro destaque foi o ar. Este é o ano do combate à poluição atmosférica, promovido pela ONU, por isso, ao longo do percurso os corredores leram várias mensagens sobre o tema. “Sentiu a diferença do ar?”, questionava uma das placas. Em meio a um esforço para manter o fôlego durante a corrida, era impossível ser indiferente à sensação de ar puro que emanava da floresta ao nosso redor.

Ao meio-dia, o parque abriu as portas para a visitação normal. Na volta ao Centro de Visitantes, refiz o percurso da corrida num ônibus e observei como, de fato, a pista já estava completamente limpa. Não havia vestígio das quase 5 mil pessoas que haviam passado por ali há poucas horas.

Como não houve alternativa ao copo plástico de hidratação, a organização instituiu zonas de descarte, para facilitar a limpeza após o evento. Segundo o diretor-geral da Cataratas do Iguaçu S/A, Adélio Demeterko, “sempre há cuidado com a reciclagem do lixo. Assim que a prova foi evoluindo, já foi feita a desmobilização da estrutura e a coleta de todos os resíduos”. Cerca de 90% dos resíduos orgânicos serão triturados e transformados em adubo. Lonas e copos de isotônicos serão reciclados e reutilizados.

Diretor comercial da empresa X3M, que organiza corridas de aventura, Bernardo Fonseca veio do Rio de Janeiro para conhecer as Cataratas pela 1ª vez durante a meia-maratona. O diretor acredita que “a prova tem o potencial de se tornar uma das principais meias-maratona do país porque ela tem um pilar ambiental, de sustentabilidade e turismo muito a flor da pele”.

Acostumado a realizar eventos esportivos em unidades de conservação, Bernardo pontua que o principal desafio é minimizar os impactos. “Para isso existem diversas formas e ferramentas, desde a construção dessa cultura ambiental nas pessoas que estão indo para lá, para que as pessoas contribuam, até a fiscalização, o canal de comunicação e a logística do evento”, explica. “É um um caminho um pouco mais longo de planejamento do que de uma prova normal porque é preciso incluir esses elementos e esses atores, como o ICMBio, cuja missão prioritária é a conservação da natureza”, acrescenta.

De acordo com Bernardo, apesar do planejamento exigir mais tempo e cuidado, o resultado é positivo para os dois lados: atletas e natureza. “O esporte e os eventos que interagem com a natureza trazem um potencial turístico para que as pessoas conheçam aquela área e entendam sua importância”, conclui o diretor-comercial da X3M. Afinal de contas, medalhas e pódios à parte, na Meia das Cataratas o primeiro lugar inquestionável foi – e sempre há de ser – da natureza.

O 1º lugar de verdade é da natureza. Foto: Duda Menegassi

 

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